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CABRAS – Cabeças que voam, cabeças que rolam

Cabras – cabeças que voam, cabeças que rolam teve como ponto de partida o Cangaço e outros movimentos de resistência ao Estado, guerras não oficiais no Brasil que sempre foram fortemente reprimidas e findaram em geral com a decapitação e exposição das cabeças de seus líderes. Histórias que se mantêm presentes no imaginário popular, nas manifestações sagradas e nas festividades, como atos constante de resistência e criação.

O espetáculo é dividido em quatro partes que abordam a relação entre Guerra, Festa e Fé, cerne desta pesquisa criativa. Cada parte é formada por cinco textos narrativos, escritos por Luis Alberto de Abreu, que não mantém entre si uma relação temporal ou causal, própria das formas dramáticas, mas compõem uma espécie de dramaturgia espacial, criada por Luis Alberto de Abreu e Maria Thais e que se inspira nos trípticos. 

Atores narradores: o bando

 Cabras é narrado, cantado, tocado e dançado por um bando de dez atores narradores que ora figuram como guerreiros que seguem para a batalha, ora como fiéis de uma procissão ou, ainda, como uma família em festa, uma horda de cabras ou uma matilha de cães. Sempre em transformação, a presença de um coletivo em deslocamento é cerne do espetáculo, ainda que em alguns momentos um ator se destaque para assumir a voz de um personagem ou corifeu, para em seguida diluir-se novamente no coro.

Espaço Cênico: o lugar território

Proposto pelo cenógrafo e figurinista Márcio Medina o lugar onde a escritura da cena se desenha adquire significados e se transforma a partir da presença dos atores, de todos os elementos da cena e do público, que dele é parte integrante, criando os limites e a zona de fronteira da encenação.  Em Cabras o que define o lugar como espaço cênico são o piso-terra, o sol vermelho, um único tronco de árvore, além dos atores, figurinos, objetos, instrumentos, luz e dos desenho de cena, que criam outros territórios.

Figurinos: a pele território

Os figurinos criados por Marcio Medina foram construídos a partir de sobreposições sobre a roupa base (que remete à forma da calça usada no Cangaço), transformam-se e funcionam como elementos que distinguem cada parte do espetáculo. Têm inspiração em múltiplas referências, como as hakamas dos guerreiros samurais, roupas de rituais religiosos e o próprio cangaço, sem nunca determinar um contexto histórico ou cultural exclusivo. Ao se transformarem, com novas amarras e sobreposições, as peças do figurino transmutam a própria figura do ator, como se este mudasse de pele e de ser. O principal elemento da narrativa visual é dado pela alternância da cromática dos figurinos em cada tríptico: azul para a Guerra, branco para Guerra-Fé, vermelho para a Guerra-Festa e, na última parte,  Guerra-Paz-Guerra o ocre-barro.

Entre a palavra e o canto

O ato de nomear e narrar o mundo e os acontecimentos expressa-se em Cabras a partir da palavra e do canto – ou melhor, no trânsito entre as duas formas, que fazem parte da mesma ação cênica. Lá, onde a dizer não alcança, a toada surge como outra forma de narrar, de evocar o que não se pode descrever.  O texto, na sua forma árida e sintética é, antes, ritmo, matéria sonora, cantilena. O repertório musical e sonoro, investigado durante todas as etapas de pesquisa e outros especialmente compostos para o espetáculo, é  formado por cantos tradicionais, que descrevem guerras, narram temas, lembram figuras ou obras referenciais na cultura brasileira, ou foram criados a partir de poesias.