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CABRAS – cabeças que voam, cabeças que rolam

O universo do cangaço serviu como porta de entrada para esta investigação sobre as relações que se dão através da batalha, do encontro com inimigo, da vingança, da insubmissão ao Estado e da criação de outros governos, com suas próprias leis regidas, não pelo papel, mas pela solidez da palavra proferida. O sertão nordestino durante séculos permaneceu abandonado pelo Estado brasileiro, vasto território sem cercas onde os primeiros estrangeiros que ali chegavam encontravam a resistência do índio, da onça, da terra. CABRAS, cabeças que voam, cabeças que rolam foi o desejo da Cia Balagan de investigar as redes de relações, alianças e parentescos que sustentam a cultura sertaneja brasileira, mestiça e herdeira de sangue e culturas diversas, fundidas e talhadas no encontro com uma geografia e clima quase impenetráveis. O homem que vive na caatinga vive a caatinga, sua sobrevivência é salvaguardada tão somente por sua profunda ligação com a natureza, na lida com os bichos, no enfrentamento das secas. O sertanejo é semelhante à cabra. Nas palavras de João Cabral de Melo Neto:

A cabra é o melhor instrumento, de verrumar a terra magra.
Por dentro da terra e da seca Nada chega onde chega a cabra.

O projeto contou com uma primeira etapa, sob o apoio da 22ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro; durante 15 meses os atores se dedicaram a investigar a tríade Guerra-Festa-Fé por meio de matérias como a dança do caboclinho, aulas de rabeca e pandeiro, Kempô (arte marcial que estuda os arquétipos dos animais e guerreiro), o estudo biomecânico do atirar a flecha, máscara neutra, e criação de estudos cênicos a partir dos temas investigados e das primeiras proposições de narrativas escritas por Luís Alberto de Abreu. Nessa primeira fase da investigação a equipe também realizou uma imersão no sertão mineiro, em uma travessia que foi de Chapada gaúcha a Montes Claros, região que tem em sua memória a jagunçagem.
No segundo momento da investigação os estudos práticos e teóricos foram aprofundados com a experimentação de algumas propostas de composição e, em 2015, com o apoio do PROAC, projeto prevê aberturas públicas de duas versões provisórias da obra, na cidade de São Paulo.